Chinelos de interior (*surippa*) no Japão
No Japão, tirar os sapatos no *genkan* não basta: calçam-se então as *surippa* fornecidas para os corredores, que se voltam a tirar antes do tatami. E nunca se sai da casa de banho com as *toire surippa*.
Significado
Direção do alvo : Calçar as *surippa* fornecidas e tirá-las antes do tatami marca a integração suave no sistema de fronteira *soto/uchi* (外/内, exterior/interior) japonês.
Significado interpretado : Recusar as *surippa* ou, pior, andar pelo corredor ou no tatami com as *toire surippa* da casa de banho: violação da fronteira limpo/sujo mais rigorosamente separada do lar japonês.
Geografia do mal-entendido
Ofensivo
- japan
- south-korea
Não documentado
- peuples-autochtones
1. O gesto e o seu sentido esperado
Entrar no Japão num ryokan, numa casa ou em muitos edifícios públicos é atravessar uma sequência de soleiras, não uma única porta. A fronteira não é a folha de entrada: é o genkan (玄関), zona de transição dividida em dois níveis, cujo degrau elevado — o agarigamachi (上がり框) — marca a fronteira oficial entre o exterior e o interior. Aí abandonam-se os sapatos de rua, orientados com as pontas viradas para a saída. No espaço interior calçam-se então as surippa (スリッパ) — chinelas de calcanhar aberto, sem contraforte traseiro, fornecidas pelo anfitrião ou pelo estabelecimento. Três precisões operacionais cruciais: (i) as surippa tiram-se antes de entrar numa divisão de tatami, onde se circula de meias ou descalço; (ii) um segundo par dedicado — as toire surippa (トイレスリッパ) — espera diante da porta da casa de banho e nunca deve sair dela; (iii) a não confundir com as uwabaki (上履き), chinelas de calcanhar fechado que são a norma nas escolas, ginásios e ambientes médicos, ao passo que as surippa são privilegiadas nos ryokan e na maioria dos lares privados.
2. Onde o gesto descarrila: geografia do mal-entendido
O visitante estrangeiro comete tipicamente três erros em cascata. O primeiro — manter os sapatos de rua para além do genkan — é raro porque está bem documentado pelos guias turísticos. O segundo é mais frequente: esquecer-se de tirar as surippa antes de pôr o pé no tatami. Os antropólogos do Japão falam aqui de uma violação da fronteira soto/uchi (外/内, exterior/interior), estrutura de pensamento fundamental analisada por Bachnik e Quinn (Situated Meaning, 1994, Princeton UP). Hendry (Wrapping Culture, 1993, Oxford UP) demonstra por outro lado que a cultura japonesa opera por camadas sucessivas de envolvimentos (tsutsumi) — desde a embalagem dos presentes até à disposição espacial das casas e dos jardins. O terceiro erro — o mais memorável para os anfitriões japoneses — diz respeito às toire surippa: esquecer-se de as tirar à saída da casa de banho e caminhar com elas no corredor, ou mesmo no tatami, mistura aquilo que a cultura doméstica japonesa separa com maior rigor: o limpo (kirei) e o sujo (kitanai).
3. Génese histórica
O hábito de tirar os sapatos à entrada precede de muito a modernidade japonesa. Tem as suas raízes na transição, a partir de cerca de 300 a.C. (Britannica, Yayoi period c.300 BCE-c.250 CE; World History Encyclopedia, Yayoi Period), das habitações semi-enterradas Jōmon para as estruturas de pavimento elevado (takayuka) introduzidas com a cultura do arroz pelos Yayoi: elevar o solo protegia primeiro os grãos da humidade e dos parasitas (os primeiros celeiros de arroz Yayoi eram construídos a 1 ou 2 metros do solo, com colares anti-roedores nos pilares), depois os humanos da mesma humidade. O próprio genkan, enquanto elemento arquitetónico distinto com degrau elevado formalizado, emerge na época Edo (1603-1868); é primeiro um privilégio das residências de samurais e da alta sociedade, onde o shikidai (式台) acolhe as visitas cerimoniais. O termo genkan é tomado de empréstimo ao vocabulário budista zen, no qual designava a soleira do templo e o «início do treino espiritual» (etimologia 玄関, «entrada do mistério»; Encyclopedia.com; Japanese Wiki Corpus). A sua generalização aos lares comuns ocorre com a modernização Meiji (1868-1912). As próprias surippa são uma invenção japonesa do início da era Meiji: perante a afluência de visitantes ocidentais que não sabiam tirar os sapatos, foram criadas estas chinelas para enfiar por cima dos sapatos a fim de preservar os pavimentos interiores sem impor o ritual completo da remoção (Heiwa Slipper; Kawaraban Japan).
4. Incidentes documentados
O incidente diplomático mais bem documentado a iluminar a sensibilidade japonesa à fronteira sapato/interior é o jantar Netanyahu-Abe em Jerusalém a 2 de maio de 2018. O chefe israelita Segev Moshe serviu aos dois primeiros-ministros e às suas esposas pralinés de chocolate em dois pares de esculturas metálicas em forma de sapatos de cidade (brogues) pretos — na realidade batentes de porta do designer britânico Tom Dixon (nascido na Tunísia). O diário israelita Yedioth Ahronoth, cujo relato foi retomado pelo Times of Israel, pelo Jerusalem Post e por The Forward, refere os comentários «consternados» da delegação japonesa — um dos diplomatas japoneses declarou que «não existe nenhuma cultura em que se ponham sapatos sobre a mesa». De forma independente, um alto diplomata israelita que servira no Japão, citado pelo Times of Israel, qualifica a escolha do chefe de «dumb and insensitive» (no original inglês, «estúpida e insensível»), comparando-a a servir a um convidado judeu chocolates num prato em forma de porco. O incidente ilustra pelo avesso o fundamento do sistema das chinelas de interior: se o sapato é tabu enquanto contentor ou vizinho da comida, é porque encarna o soto, o exterior impuro; as surippa, uwabaki e toire surippa são as mediações positivas desta fronteira. No quotidiano, o erro estrangeiro emblemático e frequente é mais modesto mas universal: a «gafe das chinelas da casa de banho» (toire surippa faux pas), recenseada por blogues de expatriados (The Japans, julho de 2014; Phantom Riverstone, maio de 2017; A British Prof in Japan, março de 2017) e por Japan-guide.com e Nippon.com como um dos erros mais comuns dos visitantes ocidentais no Japão.
5. Como reparar
A fazer: tirar os sapatos no genkan, com as pontas viradas para a saída; aceitar as surippa fornecidas; tirá-las antes de qualquer tatami e circular de meias ou descalço; calçar as toire surippa ao entrar na casa de banho e deixá-las lá ao sair; em visita formal, usar meias limpas (os pés descalços são tolerados em ambiente informal mas inadequados num ryotei ou num banquete de gueixas — Ninja Kotan Travel; the-tea-crane). A evitar: atravessar o agarigamachi com sapatos de rua; recusar ostensivamente as surippa «por higiene»; sair da casa de banho com as toire surippa; pousar uma chinela, mesmo surippa, sobre o tatami.
Origens históricas
O hábito japonês de tirar os sapatos à entrada tem as suas raízes na transição Jōmon→Yayoi (a partir de cerca de 300 a.C. segundo a Britannica, com a introdução da cultura do arroz e das estruturas de pavimento elevado takayuka). O genkan (玄関) enquanto elemento arquitetónico distinto emerge na época Edo (1603-1868), primeiro como privilégio dos samurais; o termo é tomado de empréstimo ao vocabulário budista zen, onde designava a soleira do templo (Encyclopedia.com). Democratização aos lares comuns sob Meiji (1868-1912). As surippa (スリッパ) são uma invenção da mesma era Meiji, criadas para os visitantes ocidentais pouco familiarizados com a remoção dos sapatos (Heiwa Slipper; Kawaraban Japan). A distinguir das uwabaki (上履き), chinelas de calcanhar fechado norma nas escolas, ginásios e ambientes médicos. Quadro antropológico: Hendry (Wrapping Culture, 1993, Oxford UP) sobre tsutsumi/envolvimentos e Bachnik & Quinn (Situated Meaning, 1994, Princeton UP) sobre soto/uchi e a separação ritual puro/impuro.
Incidentes documentados
- 2018 — Lors d'un dîner officiel à la résidence du Premier ministre Netanyahu à Jérusalem le 2 mai 2018, le chef israélien Segev Moshe sert aux Premiers ministres israélien et japonais et à leurs épouses des pralines au chocolat dans deux paires de sculptures métalliques en forme de chaussures de ville (*brogues*) noires — en réalité des arrête-portes du designer britannique Tom Dixon (né en Tunisie). Le quotidien israélien Yedioth Ahronoth, dont le récit fut repris par le Times of Israel, le Jerusalem Post et The Forward, rapporte les commentaires « consternés » de la délégation japonaise, l'un de ses diplomates déclarant qu'« il n'existe aucune culture où l'on pose des chaussures sur la table ». Indépendamment, un haut diplomate israélien ayant servi au Japon, cité par le Times of Israel, qualifie le choix du chef de « stupide et insensible » (« dumb and insensitive » dans l'original anglais), le comparant au fait de servir à un convive juif des chocolats dans un plat en forme de cochon. L'incident illustre par le revers le fondement anthropologique du système des chaussons d'intérieur japonais : la chaussure incarne le *soto* (l'extérieur impur), et la mêler à la nourriture viole la frontière *soto/uchi* dont les *surippa* sont la médiation positive. Le ministère israélien des Affaires étrangères publia un communiqué de défense du chef ; Abe l'invita néanmoins poliment à cuisiner au Japon.
Recomendações práticas
Para fazer
- Accepter *uwabaki* sans question. Marcher naturellement. Demander taille si plusieurs options.
O que evitar
- Ne pas refuser pour hygiène. Ne pas garder chaussettes trouées. Ne pas demander « Pourquoi ? ».
Fontes
- Situated Meaning: Inside and Outside in Japanese Self, Society, and Language
- Wrapping Culture: Politeness, Presentation, and Power in Japan and Other Societies
- Japan — The Yayoi period (c. 300 BCE-c. 250 CE) — ↗
- Yayoi Period — ↗
- Genkan — ↗
- Uwabaki — ↗
- Genkan — ↗
- The "Genkan": Japan's Traditional Entryway and Footwear Etiquette — ↗
- Slippers in Japan — ↗
- Indoor Etiquette - good manners in the Japanese house — ↗
- How did the slipper become so common in Japan? — ↗
- Slippers actually originate in Japan! Japanese footwear culture that we want to share with people overseas. — ↗