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Codex MundiCinésica — gestosA mao no coracao (juramento de fidelidade)
e0072Cinésica — gestos · salutations-politiques

A mao no coracao (juramento de fidelidade)

Colocar a mao direita sobre o coracao durante um hino ou um juramento: emblema civico americano de sinceridade, percebido como teatral ou incompreensivel na maior parte do mundo.

✓ Direção do alvoExpressar sinceridade, lealdade a nacao e respeito pelos seus simbolos. No contexto americano: participacao no Pledge of Allegiance ou homenagem durante o hino nacional.
⚠ Significado interpretadoFora dos Estados Unidos, o gesto e percebido como teatral, melodramatico ou insincero, mais um emprestimo cinematografico do que um codigo gestual autentico. No mundo islamico, pode ser confundido com um gesto de deferencia para com o interlocutor, criando confusao protocolar.

A mao no coracao (juramento de fidelidade)

§1 — O gesto e o seu significado pretendido

Colocar a mao direita plana sobre o peito, ao nivel do coracao, constitui na America do Norte um emblema gestual codificado que exprime sinceridade, respeito e fidelidade civica. O gesto e indissociavel do Pledge of Allegiance, juramento de fidelidade recitado diariamente nas escolas americanas desde finais do seculo XIX, e da postura adotada durante o hino nacional (The Star-Spangled Banner). A sua morfologia — mao direita, palma contra o peito, corpo ereto de frente para a bandeira — esta prescrita pelo Codigo dos Estados Unidos (4 U.S.C. § 4) desde a alteracao de 22 de junho de 1942 (Lei Publica 77-623), que substituiu a saudacao Bellamy (braco direito estendido para a bandeira) por ser considerada demasiado semelhante a saudacao fascista surgida na Europa.

Fora do contexto escolar ou desportivo americano, o gesto difundiu-se como sinal espontaneo de sinceridade na cultura popular anglofona: colocar a mao sobre o coracao acompanha uma declaracao de honestidade, uma promessa informal ou uma reacao emocional intensa.

§2 — Geografia do mal-entendido: a singularidade americana

Fora dos Estados Unidos e, em menor grau, do Canada, este gesto nao esta associado a qualquer protocolo civico equivalente na grande maioria dos paises. E percebido como uma convencao americana importada pelo cinema e televisao, ou como um gesto melodramatico de sinceridade pessoal sem enraizamento ritual. Na Europa ocidental, America Latina, Asia ou mundo arabe, nenhuma cerimonia nacional prescreve uma postura de mao sobre o coracao durante os himnos nacionais: os participantes ficam de pe em silencio, com as maos ao lado do corpo ou unidas.

Em certos contextos do mundo islamico, colocar a mao no peito ou no coracao e um gesto de deferencia sincera para com o interlocutor — distinto da fidelidade civica americana — o que pode criar confusao protocolar em trocas diplomaticas ou profissionais interculturais.

Na Asia oriental e sudoriental, o gesto nao esta codificado como sinal de respeito nacional. O equivalente local e a reverencia (ojigi japones, jeol coreano), a postura ereta silenciosa ou o wai tailandes conforme o contexto.

§3 — Origens e documentacao academica

O gesto legalmente prescrito nos Estados Unidos deriva de uma decisao legislativa de 1942 que visava substituir a saudacao Bellamy. O proprio Pledge of Allegiance foi redigido em agosto de 1892 por Francis Bellamy (1855-1931), pastor batista e socialista, para o periodico The Youth's Companion por ocasiao do 400.o aniversario da chegada de Cristovao Colombo. A postura original que acompanhava o juramento era a saudacao Bellamy: braco direito estendido para a bandeira, palma para baixo, depois para cima. O Congresso americano substituiu definitivamente a saudacao Bellamy pela mao sobre o coracao em 22 de junho de 1942 atraves da Lei Publica 77-623.

Morris, Collett, Marsh, O'Shaughnessy (1979) documentam a variacao dos gestos de respeito e fidelidade entre culturas. Axtell (1998) assinala que o gesto americano da mao sobre o coracao e regularmente mal interpretado em contextos profissionais ou diplomaticos fora dos Estados Unidos. Kendon (2004) contextualiza o fenomeno no quadro mais amplo dos emblemas cinesicos com funcao ritual civica.

§4 — A controversia Kaepernick e o peso simbolico contemporaneo

Em agosto de 2016, o quarterback da NFL Colin Kaepernick (San Francisco 49ers) comecou a ajoelhar-se em vez de se levantar com a mao no coracao durante o hino nacional, em protesto contra a violencia policial e a discriminacao racial nos Estados Unidos. Esta recusa deliberada do gesto codificado desencadeou uma massiva controversia nacional, coberta pela CNN, ESPN, o New York Times e centenas de outros orgaos de comunicacao de referencia. O gesto de Kaepernick — ou antes a sua ausencia — tornou-se num dos atos de protesto simbolicos mais debatidos da decada nos Estados Unidos.

§5 — Recomendacoes praticas

Num evento nacional americano (jogo desportivo, cerimonia oficial), adotar a postura esperada — mao direita sobre o peito — constitui um sinal de respeito apreciado. Fora dos Estados Unidos, evitar reproduzir este gesto durante himnos nacionais estrangeiros: a convencao local e geralmente a postura ereta silenciosa. Em contextos diplomaticos ou profissionais interculturais com interlocutores do Medio Oriente, ter em conta que colocar a mao no peito pode ser lido como um gesto de deferencia pessoal. A comunicacao verbal explicita continua a ser o melhor veiculo de sinceridade em contextos multiculturais.

Geografia do mal-entendido

Ofensivo

  • saudi-arabia
  • iran
  • iraq
  • jordan
  • egypt
  • north-korea

Neutro

  • usa
  • canada
  • uk
  • australia
  • new-zealand
  • ireland

Não documentado

  • western-europe
  • latin-america
  • east-asia
  • southeast-asia
  • sub-saharan-africa
  • south-asia
  • indigenous-peoples

Origens históricas

Juramento de fidelidade redigido em agosto de 1892 por Francis Bellamy para The Youth's Companion. Postura mao-no-coracao codificada pela Lei Publica 77-623 em 22 de junho de 1942, em substituicao da saudacao Bellamy considerada demasiado semelhante a saudacao fascista europeia.

Incidentes documentados

Recomendações práticas

Para fazer

  • Respeitar o gesto no seu contexto americano: e codificado e sincero para quem o pratica. Nao o imitar noutros contextos nacionais sem conhecer a convencao local. Preferir marcas de respeito vocais ou posturais equivalentes em cada cultura.

O que evitar

  • Não presuma que o gesto significa a mesma coisa em todos os lugares. Não o use de forma irônica ou zombeteira. Evite usar o gesto na Rússia sem um contexto explícito.

Alternativas neutras

Fontes · 5

AcadêmicaMorris, Desmond, Collett, Peter, Marsh, Peter, O'Shaughnessy, Marie. Gestures: Their Origins and Distribution. Stein and Day, 1979.
AcadêmicaAxtell, Roger E. Gestures: The Do's and Taboos. John Wiley and Sons, 1998.
AcadêmicaKendon, Adam. Gesture: Visible Action as Utterance. Cambridge University Press, 2004.
PrimáriaUnited States Congress. Public Law 77-623, Flag Code Amendment. Congressional Record, June 22, 1942. —
ReferênciaWikipedia. Pledge of Allegiance. Wikimedia Foundation, 2024. —

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