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CodexMundi Um atlas acadêmico dos sentidos perdidos ao cruzar fronteiras

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A sola exposta

Mostrar a planta do pé: conforto no Ocidente, insulto grave na Ásia.

Completo✓ VerificadoOfensa

Categoria : Cinésica — gestosSubcategoria : pieds-chaussuresNível de confiança : 2/5 (hipótese de origem)Identificador : e0075

Significado

Direção do alvo : Postura sentada involuntária e ergonómica. Em contexto ocidental, cruzar as pernas expondo a sola é um simples gesto de conforto sem qualquer significação simbólica.

Significado interpretado : Insulto ritual grave no mundo árabe, no subcontinente indiano e no Sudeste Asiático budista: apontar a sola para alguém equivale a dizer-lhe que está ao nível daquilo que o pé pisa.

Geografia do mal-entendido

Ofensivo

  • egypt
  • saudi-arabia
  • uae
  • qatar
  • kuwait
  • bahrain
  • oman
  • lebanon
  • syria
  • jordan
  • iraq
  • morocco
  • algeria
  • tunisia
  • libya
  • vietnam
  • thailand
  • indonesia
  • malaysia
  • philippines
  • singapore
  • myanmar
  • cambodia
  • laos
  • india
  • pakistan
  • bangladesh
  • sri-lanka
  • nepal
  • bhutan

Neutro

  • usa
  • canada
  • france
  • belgium
  • netherlands
  • luxembourg

Não documentado

  • peuples-autochtones

1. O gesto e o seu significado esperado

No Ocidente, cruzar as pernas expondo a sola do sapato é um gesto maquinal, ergonómico, desprovido de mensagem. O pé não está culturalmente codificado: trata-se de uma postura adaptativa que o observador ocidental trata como um pormenor biomecânico sem significado. Nenhuma intenção, nenhuma simbólica. O corpo é neutro.

2. Onde tudo descarrila: geografia do mal-entendido

No mundo árabe (Emirados, Arábia Saudita, Egito, Líbano, Iraque, Jordânia, Catar, Kuwait, Barém, Omã, Marrocos, Tunísia, Argélia), no subcontinente indiano (Índia, Paquistão, Bangladesh, Nepal, Sri Lanka, Butão) e no Sudeste Asiático budista (Tailândia, Indonésia, Malásia, Camboja, Laos), a sola é tratada como o objeto mais sujo do corpo. Apontar a sola para uma pessoa — mesmo por inadvertência, com as pernas cruzadas no estilo americano «figure 4» (tornozelo sobre o joelho) — equivale a dizer «estás ao nível daquilo que o meu pé pisa». Nos Emirados Árabes Unidos, num quadro de negócios, ver um europeu cruzar as pernas em frente a um xeique pode bastar para encerrar a reunião sem que se pronuncie uma única palavra.

3. Génese histórica

Convergem duas raízes. Do lado hindu, a marca mais antiga é o Purusha Sukta (Rigueveda, hino X.90, datado de c. 1200 a.C.): da boca do Purusha cósmico saem os Brâmanes (casta sacerdotal) e dos seus pés os Sudras (casta servil). A hierarquia é primeiro social e depois corporal por projeção. A Manusmriti, texto dharmaśāstra datado do séc. II a.C. ao séc. II d.C. (edição crítica Olivelle 2005, Oxford University Press), codifica em seguida este esquema: tocar nos pés de um mais velho torna-se gesto de submissão ritual, e expor os próprios pés a um superior torna-se uma falta de respeito. Do lado muçulmano, as coletâneas de hádices do séc. IX — o Sahih al-Bukhari (compilado por volta de 846 por Muhammad al-Bukhari, †870) e o Sahih Muslim (concluído pouco antes da morte de Muslim ibn al-Hajjaj, †875) — impõem retirar o calçado antes de entrar numa mesquita ou num lar; a sola, que pisa a rua e o solo público, é aí tratada como objeto de impureza prática. No cruzamento destes dois corpus, em todo o arco geográfico islamo-hindu, a sola exposta adquire valor de insulto involuntário.

4. Incidentes célebres documentados

A 14 de dezembro de 2008, em Bagdade, Muntadhar al-Zaidi, jornalista iraquiano correspondente do canal Al-Baghdadia, atira os dois sapatos contra o presidente americano George W. Bush durante uma conferência de imprensa conjunta com o primeiro-ministro Nuri al-Maliki. Ao primeiro sapato grita em árabe: «This is a farewell kiss from the Iraqi people, you dog»; ao segundo: «This is for the widows and orphans and all those killed in Iraq.» Bush esquiva-se aos dois. Al-Zaidi é condenado a 12 de março de 2009 a três anos de prisão (pena reduzida a um ano em recurso) e libertado a 15 de setembro de 2009 após nove meses de detenção. Antes, a 9 de abril de 2003, na praça Firdos em Bagdade, durante o derrube da estátua de Saddam Hussein, civis iraquianos golpeiam o bronze à sapatada: gesto televisionado em mundovisão que condensa a dupla simbólica da sola suja e da queda do tirano. A 22 de fevereiro de 2010, em Sevilha, durante uma cerimónia de entrega de um prémio cultural a Recep Tayyip Erdoğan (à época primeiro-ministro turco), Hokman Joma, curdo de nacionalidade síria em situação irregular em Espanha, atira um sapato a Erdoğan a gritar «Viva Kurdistan»; o sapato falha Erdoğan e atinge um guarda-costas. Joma é detido.

5. Recomendações práticas

Fazer: (1) manter ambos os pés assentes no chão em qualquer contexto formal no Médio Oriente, na Ásia do Sul e do Sudeste; (2) se for necessário cruzar as pernas, fazê-lo de forma plana, com a sola virada para o solo, nunca tornozelo sobre o joelho; (3) observar a postura do anfitrião local e replicá-la; (4) descalçar-se antes de entrar num lar, numa mesquita ou num templo. Não fazer: (1) nunca cruzar perna sobre joelho na postura americana «figure 4» numa majlis dos Emirados, num gabinete catariano ou numa sala hindu; (2) não apontar os pés para um interlocutor nem para um ícone religioso (estátua de Buda, imagem sagrada, Alcorão pousado no chão); (3) não tentar relativizar a posteriori alegando inocência: a perceção já está feita. Alternativas seguras: pés juntos no chão, tornozelos cruzados discretamente debaixo da cadeira, postura direita que assinala o respeito.

Origens históricas

Duas raízes convergentes. (1) Hinduísmo: Purusha Sukta (Rigueveda X.90, c. 1200 a.C.) coloca os Brâmanes na boca e os Sudras nos pés do Purusha cósmico — hierarquia social projetada sobre o corpo. A Manusmriti (séc. II a.C. – séc. II d.C., edição Olivelle 2005) codifica este esquema no dharmaśāstra. (2) Islão: coletâneas de hádices do séc. IX (Sahih al-Bukhari compilado por volta de 846 por al-Bukhari †870; Sahih Muslim concluído pouco antes da morte de Muslim ibn al-Hajjaj †875) impõem retirar o calçado à entrada de uma mesquita ou de um lar; a sola, que pisa a rua e o solo público, é tratada como objeto de impureza prática. Na interseção destes dois corpus, no arco geográfico islamo-hindu, a sola exposta torna-se insulto involuntário maior.

Incidentes documentados

Recomendações práticas

Para fazer

  • - Garder les deux pieds posés au sol dans tout contexte formel au Moyen-Orient, en Asie du Sud et du Sud-Est - Si l'on croise les jambes, le faire à plat, semelle dirigée vers le sol, jamais cheville au-dessus du genou - Observer la posture de l'hôte local et la calquer - Retirer ses chaussures avant d'entrer dans un foyer, une mosquée, un temple

O que evitar

  • - Ne jamais croiser jambe sur genou en posture américaine « figure 4 » dans une majlis émiratie, un bureau qatari ou un salon hindou - Ne pas pointer ses pieds vers un interlocuteur, une icône religieuse, un Coran ou une statue de Bouddha - Ne pas relativiser après coup en plaidant l'innocence : la perception est faite - Ne pas franchir un seuil de domicile ou de mosquée chaussé

Alternativas neutras

Fontes

  1. The National (UAE, 2018). Why showing the soles of your feet can be offensive in the Arab world. —
  2. Slate (2008). What do Iraqis find so insulting about shoes and feet? —
  3. Al Jazeera (2013). The Arabs and their flying shoes. —
  4. CNN (2008-12-14). Iraqi journalist throws shoes at Bush in Baghdad. —
  5. Washington Post (2018-12-14). Years ago, an Iraqi journalist threw his shoes at George W. Bush. —
  6. Wikipedia. George W. Bush shoe-throwing incident. —
  7. Wikipedia. Muntadhar al-Zaidi. —
  8. Wikipedia. Saddam Hussein statue destruction. —
  9. Wikipedia. List of shoe-throwing incidents. —
  10. Wikipedia. Manusmriti (datation IIe s. AEC – IIe s. EC). —
  11. Hürriyet Daily News (2010-02). Man who threw shoe at Turkey's Erdoğan willing to return to Syria. —
  12. Commisceo Global. What Behaviours Are Rude In The Middle East? —
  13. Poyatos, F. (2002). Nonverbal Communication Across Disciplines, vol. 2: Paralanguage, kinesics, silence, personal and environmental interaction. John Benjamins.
  14. Olivelle, P. (2005). Manu's Code of Law: A Critical Edition and Translation of the Mānava-Dharmaśāstra. Oxford University Press.
  15. Hall, E. T. (1966). The Hidden Dimension. Doubleday (proxémique, contexte culturel haut/bas).
  16. Asia Society, The Sacrifice of Purusha: The Impure Man (Rig Veda X.90). —
  17. Britannica, Purusha (Hindu mythological figure). —