01O gesto e o seu significado esperado
A mao direita pousada plana sobre o peito, a altura do coracao, acompanha ou substitui uma saudacao em grande parte do mundo arabe e para alem dele. O gesto faz-se muitas vezes logo apos um aperto de mao, a mao que deixa a do outro para voltar ao proprio coracao, por vezes com uma ligeira inclinacao da cabeca. Significa que a saudacao e sincera e vem do coracao. A sua carga e calorosa e respeitosa, sem solenidade particular: usa-se para cumprimentar, agradecer, despedir-se ou mostrar consideracao.
Devem distinguir-se dois usos principais. O primeiro e o gesto de respeito que segue um aperto de mao entre pessoas para quem o contacto e admitido: reforca a sinceridade. O segundo e o gesto-substituto, pousado sobre o coracao em vez da mao estendida, quando o contacto fisico nao e desejado, em particular entre um homem e uma mulher nao mahram num contexto em que prevalece o pudor religioso. Neste segundo caso o gesto nao e uma recusa mas uma saudacao completa, que transmite a mesma boa vontade que um aperto de mao.
02Rececao e geografia do mal-entendido
O gesto e positivo e nao comporta qualquer duplo sentido ofensivo. O risco intercultural nao reside num sentido oculto mas numa leitura enviesada pelos codigos do observador. Um ocidental pode acha-lo cerimonioso, ou ver nele erradamente um juramento teatral, porque a mao sobre o coracao evoca, no seu repertorio, a prestacao de juramento ou o hino nacional.
O mal-entendido mais delicado diz respeito ao gesto-substituto. Quando uma mulher muculmana recusa um aperto de mao e leva a mao ao coracao, um interlocutor que ignora a convencao pode ler a evitacao do contacto como frieza, distancia, ate uma afronta. E o contrario: o gesto e escolhido precisamente para cumprimentar com calor sem impor um contacto que o pudor religioso afasta. A mesma logica vale quando e um homem que se abstem de estender a mao a uma mulher. Compreender o gesto evita que uma marca de respeito se transforme num incidente.
03Genese historica
O gesto da mao sobre o coracao como saudacao esta documentado ha muito nos repertorios gestuais do espaco mediterranico e do Proximo Oriente. A obra de referencia de Morris e dos seus coautores, Gestures: Their Origins and Distribution (1979), regista variantes da saudacao respeitosa e da mao levada ao peito entre os emblemas da bacia mediterranica, sem o tratar como um gesto de carga negativa.
No mundo arabo-muculmano o uso articula-se com o salam, a saudacao de paz (as-salamu alaykum), de que a mao sobre o coracao e o acompanhamento gestual natural: a palavra de paz e o gesto que a sela. A funcao de substituto do contacto, por seu lado, liga-se as normas de pudor (recato do olhar e do contacto entre pessoas nao mahram) proprias dos contextos religiosos. Por fim, este gesto nao deve confundir-se com o adab da Asia meridional, a saudacao das comunidades de lingua urdu em que a mao direita e levada a testa: o mesmo registo de respeito, mas morfologia e area cultural distintas.
04Variantes e contextos contemporaneos
O gesto permanece vivo e amplamente usado, das saudacoes quotidianas as trocas oficiais. Lideres e diplomatas do mundo arabe usam-no regularmente para completar ou substituir o aperto de mao perante as cameras, o que contribui para o dar a conhecer fora da sua area de origem. A sua visibilidade aumentou a medida que os codigos de saudacao sem contacto foram discutidos a escala mundial, sobretudo em periodos em que o contacto fisico era evitado por razoes sanitarias.
Nos meios multiculturais e profissionais o gesto serve cada vez mais como saudacao por defeito prudente: permite cumprimentar respeitosamente uma pessoa sem presumir a sua disposicao ao contacto. Esta flexibilidade explica a sua difusao para alem do mundo arabe, onde e de bom grado adotado como alternativa cortes e neutra ao aperto de mao.
05Recomendacoes praticas
Se um interlocutor pousa a mao sobre o coracao, o melhor e retribuir o gesto: mao direita sobre o proprio peito, ligeiro aceno de cabeca. Quando uma pessoa de sexo oposto leva a mao ao coracao em vez de estender a sua, e preciso compreender que se trata de uma saudacao completa e respeitosa, e responder do mesmo modo em vez de insistir no contacto.
As precaucoes sao simples. Nao forcar um aperto de mao quando o gesto-substituto e oferecido. Nao ler o gesto como frieza ou juramento. Nao o confundir com o adab sul-asiatico. Em caso de duvida sobre a disposicao do outro ao contacto, abrir nos proprios com a mao sobre o coracao e a solucao mais segura: cumprimenta-se com calor sem arriscar embaracar.
Geografia do mal-entendido
Neutro
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Origens históricas
Mão direita sobre o coração como saudação respeitosa, atestada há muito nos repertórios gestuais mediterrânicos e do Próximo Oriente (Morris et al. 1979). Ligada ao salam (as-salamu alaykum) no mundo arabo-muçulmano; cortês substituto do contacto entre não mahram. Distinta do adab sul-asiático.
Recomendações práticas
Para fazer
- Retribuir o gesto se o recebermos: pousar a própria mão direita sobre o coração com um ligeiro aceno de cabeça. Quando uma pessoa de sexo oposto leva a mão ao coração em vez de a estender, compreender que se trata de uma saudação respeitosa e responder do mesmo modo.
O que evitar
- Não insistir num aperto de mão se o interlocutor leva a mão ao coração: o contacto não é recusado por hostilidade. Não confundir este gesto com o adab sul-asiático (mão direita levada à testa), que é uma saudação distinta. Não o interpretar como um juramento ou uma promessa solene.
Alternativas neutras
Uma saudação verbal (as-salamu alaykum), uma ligeira inclinação da cabeça, ou um aperto de mão clássico entre pessoas do mesmo sexo quando o contacto é aceite.